O Jorge sem o Fred, nós sem o Fred


Eu tinha seis anos quando assisti Harry Potter e a Pedra Filosofal pela primeira vez. Anos depois, eu mal me lembrava do filme quando passava reprises na TV. Uma única cena, no entanto, ficou gravada para sempre na minha memória. 

Lembro que aquele dia eu entrei no cinema porque descobri que uma amiguinha dos tempos de pré-primário estava lá. Mal sabia do que se tratava o filme. Depois de muito insistir, minha mãe acabou conseguindo comprar ingressos para a sessão que tinha começado uns 15 minutos atrás. Quando entramos na sala, com todos se virando para nos olhar, vi seis pessoas ruivíssimas na tela. 

A senhora mais velha, carinhosamente se voltava para um dos dois meninos iguais com caras engraçadas: 

- Fred, querido, você agora. 

- Eu não Fred, sou Jorge. Francamente, mulher, você ainda diz que é nossa mãe? 

O cinema borbulhou em risadas. Nossa chegada inesperada já se tornara motivo de pouco interesse. Na grande tela, a mulher, meio constrangida, se desculpava. 

- Oh, Jorge. Me desculpe! 

- Eu estava brincando, sou o Fred. - Foram as últimas palavras do menino antes de entrar em uma pilastra e desaparecer. 

 Durante anos, enquanto eu ainda me recusava a tentar assistir um filme de Harry Potter inteiro, só conseguia pensar qu provavelmente a única coisa legal eram os gêmeos. A passagem pela plataforma 9 ³/4, como eu fiquei sabendo que se chamava a pilastra, ficara eternizada na minha memória.

Mesmo hoje, depois de ler todos os livros centenas de vezes e rever os filmes milhares mais, posso dizer que aquela cena simples, quase que sem importância para a maioria, é uma das minhas favoritas. 

Me lembro de ler os livros, ver a descrição dos personagens e pensar em como seria possível que encontrassem atores tão perfeitos (e ruivos) para interpretar dois personagens com tanta maestria. 

Nunca consegui, porém, distinguir um do outro. Não consigo dizer Fred sem emendar com Jorge. Me sinto como naquele episódio de Everybody Hates Chris em que é impossível não dizer "Chris e Greg". Acho até que "Fred e Jorge" foi o que deu margem para "Chris e Greg", "Drake e Josh", "Kenan e Kel" ou qualquer uma dessas duplas icônicas em que é impensável lembrar de um e se esquecer do outro. 

Acredito também que seja por isso, porque não se pode entender que Fred exista sem Jorge e vice-versa, que, de todas as mortes da saga, incluindo a dos meus personagens favoritos,  a de Fred me doeu mais. 

Foi no sofá da casa da minha avó, embaixo de diversas cobertas, que terminei de ler pela primeira vez Harry Potter e as Relíquias da Morte. Era um daqueles livros que eu simplesmente não conseguia parar. Queria devorá-lo do início ao fim. Mas travei no final do capítulo trinta e um. Devo ter relido pelo menos cinco vezes, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e um soluço exagerado, aquelas últimas quatro linhas. 

Me sentia como Percy, que sacudia o irmão. E poderia estar ali, ajoelhada ao lado de Rony, ainda sem compreender muito bem o que acabara de acontecer. Sussurrei baixinho, para não acordar ninguém: Não! Fred! Não!

Digo, com toda certeza, que ler uma morte em um livro nunca me fez tão triste quanto aquela. Havíamos perdido Cedrico, Sirius, Dumbledore, Dobby, Olho Tonto, Edwiges, Lupin, Tonks, Colin e tantos outros. Mas foi Fred, um dos gêmeos mais engraçados de que eu já tinha ouvido falar. O menino que deixava tudo virar piada e se unia ao irmão nas melhores travessuras. Aquele, que morreu com um sorriso ainda gravado no rosto, que mais fez meu coração sofrer.

Fred, querido Fred, depois que você se foi, Jorge nunca mais foi capaz de conjurar um Patrono. Todas as lembranças felizes que ele tinha, incluíam você. A maioria das nossas recordações mais memoráveis vem de vocês dois também. Nunca vou me esquecer do cinema lotado gargalhando pela primeira vez em que você aparecia em um filme de Harry Potter. Nós te amamos e sentimos imensamente a sua falta. Francamente, garoto, como você pôde fazer isso com a gente? 


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