Sr. Harry Potter. O Armário sob a Escada, Rua dos Alfeneiros nº4, Little Whinging, Surrey

      



Aos nove anos de idade, assisti “Harry Potter e a Pedra Filosofal” pela primeira vez e uma cena em questão despertou meu interesse. Eis que “O Menino que Sobreviveu” vivia num armário sob a escada, como bem foi endereçada sua carta de Hogwarts. Num primeiro olhar, pode ser meio inconsistente e até cruel pensar que um garoto órfão de dez anos de idade dorme num armário embaixo de uma escada, mas para mim esse fato estranhamente trouxe uma boa sensação e hoje entendo o porquê. Ali, naqueles poucos metros quadrados, o menino Harry pôde aprender a ser quem ele realmente era.
No armário embaixo da escada, seus pesadelos, fraquezas e medos ganhavam contraste, mas foi justamente nesse ambiente hostil onde Harry pôde conhecer o aconchego, a proteção e a coragem que familiarizar-se com suas sombras traz. Neste pequeno esconderijo, Harry ainda desconhecia o mundo mágico que o aguardava, mas já estava em contato com a magia da imaginação que lhe se serviu como patrono a fim de afastar o calafrio sombrio que a presença de um dementador provoca.
Acredito que J.K Rowling ao trazer esta referência para o livro, nos instigou a pensar sobre a criança que vive em cada um de nós, escondida e amedrontada nos calabouços do nosso inconsciente. E que por vezes, ainda lida com seus medos sob o contraste de um ambiente ameaçador, desconhecendo a coragem que nasce deste mesmo lugar. Acolher essa criança é ser quem realmente somos. Por isso, Harry pôde ser quem realmente era sem conhecer de fato sua verdadeira história. Ele estava em contato com o que temos a tendência de esconder no armário embaixo da escada, onde ninguém possa ver, nem nós mesmos. 
Anos após o contato com os filmes, li Harry Potter pela primeira vez. Recordo que, com o exemplar em mãos, corri para o quarto assim que possível a fim de mergulhar naquele universo mágico. Ao folhear o livro, envolvi-me em diversas aventuras junto dos que se tornavam os meus personagens favoritos. Senti o medo que eles sentiam, suas incertezas, suas tristezas, e também suas alegrias. Aprendi sobre o valor da amizade, sobre ter coragem e enfrentar as minhas próprias sombras e principalmente sobre o conforto que pode emergir desses momentos. Neste dia, ao terminar a leitura do livro, sentada na minha cama no segundo andar de um beliche, encontrei o meu “armário embaixo da escada”.
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  1. Interessante... Fazer amizade com a própria companhia.